Ordenha robótica na Ancali: como funciona uma leiteria considerada uma das maiores do mundo

Como funciona a ordenha robótica na Ancali, no Chile: robôs de ordenha, fluxo de vacas, saúde e nutrição, com o que ensina o Dr. Trevor DeVries.

21 de outubro de 202623 min de leitura

A ordenha robótica deixa a vaca ir ao robô quando quer: o sistema a identifica, limpa os tetos, acopla as teteiras e registra produção e saúde. Na Agrícola Ancali, considerada uma das maiores fazendas leiteiras robotizadas do mundo, durante a visita de 2026 foram informados 90 robôs (72 em operação), cerca de 4.000 vacas em lactação e quase 50 L/vaca/dia, segundo Pedro Heller Ancarola.

Este artigo junta duas fontes. A primeira é a visita gravada pela Santafé na Ancali (vídeo acima), em que cada gestor explica a sua área. A segunda são as aulas do Dr. Trevor DeVries (University of Guelph, Canadá), referência mundial em comportamento e nutrição de vacas em ordenha robótica. Os dados da fazenda são o que a equipe da Ancali disse no vídeo, com o nome de quem disse. A parte técnica vem do DeVries, com o estudo citado em cada aula.

Quem participa do vídeo

  • Pedro Heller Ancarola, diretor executivo da Agrícola Ancali
  • Mauricio Castillo, médico-veterinário, gerente de operações
  • Pablo Vázquez, gerente de processos, dejetos e energia
  • Ronald Garrido, controlador de produção leiteira
  • Katherine Rubilar, segurança do trabalho
  • Raúl Sandoval, gerente da fábrica Bovifeed
  • Daniel Muñoz, gerente de finanças e gestor comercial da Bovifeed

O que é ordenha robótica e como funciona

Num sistema de ordenha automática, a vaca decide quando entra no box. O robô faz sozinho o trabalho que numa sala de ordenha é feito por pessoas. Na Ancali, o médico-veterinário Mauricio Castillo, gerente de operações, mostra a sequência dentro do box:

Ordenha automática e ordenha voluntária

“Sistema de ordenha automática” é o nome geral dos sistemas em que um robô faz a ordenha. Quando a vaca vai ao robô por vontade própria, fala-se em ordenha voluntária.

Na Agrícola Ancali, Pedro Heller Ancarola chama de Ancali Milking System o modelo de gestão desenvolvido pela empresa, que integra três componentes fundamentais: a vaca, as pessoas e o robô.

Além da automação, o objetivo é coordenar esses três elementos para melhorar a produtividade, a eficiência operacional e o bem-estar animal.

  1. Identificação e permissão. Um portão seletor lê a vaca e decide se ela tem permissão de ordenha. Na Ancali, isso depende dos dias em lactação, da produção e de um intervalo que fica entre 4 e 8 horas.
  2. Pré-dipping. O braço robótico aplica o desinfetante nos tetos.
  3. Limpeza. Uma teteira de limpeza lava e desinfeta os quatro tetos e tira os primeiros jatos de leite.
  4. Medição de condutividade. Durante o preparo dos tetos e a retirada dos primeiros jatos de leite, o sistema obtém informações que permitem identificar possíveis alterações na saúde do úbere. As mudanças na condutividade elétrica podem servir como sinais de alerta, mas não constituem, por si só, um diagnóstico definitivo de mastite.
  5. Acoplamento. Um laser localiza os tetos e o braço coloca quatro teteiras, uma para cada teto.
  6. Ordenha por quarto. A tela mostra a produção esperada e a real. No exemplo do vídeo, a vaca esperava 12 kg e deu 13,5 kg.
  7. Saída. O braço se lava e se desinfeta, as portas se abrem e a vaca sai por conta própria para a próxima entrar.
Braço robótico ordenhando uma vaca dentro do box de ordenha robotizada na Agrícola Ancali, Chile
Box de ordenha na Ancali: braço robótico, teteiras individuais e tela com a produção esperada e a real. Imagem: vídeo da Santafé.

O Dr. DeVries resume as diferenças-chave em relação à ordenha convencional: a vaca define a própria frequência (dentro da permissão programada); o preparo do teto é automático e muito consistente; a detecção e o desvio do leite anormal dependem de sensores; a ordenha e o desacoplamento são feitos por quarto mamário; e o acesso das pessoas ao úbere é mais difícil, o que complica coletar amostra e tratar a vaca no box (aula de manejo sanitário).

Ancali: uma das maiores fazendas de ordenha robótica do mundo

A Ancali é considerada uma das maiores do mundo em ordenha robótica.

Da rotativa ao robô: a linha do tempo segundo Pedro Heller Ancarola

  • 2003: início da leiteria em confinamento. Com o crescimento da operação, a Ancali chegou a ordenhar aproximadamente 7.500 vacas em quatro salas rotativas.
  • Antes de 2014: o desgaste das instalações convencionais levou a empresa a avaliar uma renovação completa dos equipamentos ou a adoção de uma nova tecnologia. Pedro Heller Ancarola passou aproximadamente um ano nos Estados Unidos estudando sistemas de ordenha robotizada.
  • 2014: início do projeto de ordenha robotizada com oito robôs, mantendo em paralelo as salas rotativas convencionais.
  • 2015: ampliação para 16 robôs, segundo o relato de Pedro Heller Ancarola durante a visita.
  • Posteriormente: transformação progressiva das instalações existentes, adaptando os antigos galpões e áreas de ordenha ao sistema robotizado.
  • Visita de 2026: Pedro informa que a Agrícola Ancali conta com 90 robôs instalados, dos quais 72 estavam operando naquele momento devido a obras de transformação.

Atualmente, a operação combina diferentes configurações de instalações, incluindo módulos projetados especificamente para robôs e galpões reconvertidos.

Segundo Mauricio Castillo, aproximadamente 80% do sistema corresponde a instalações adaptadas a partir de estruturas convencionais.

Essa transformação permitiu à Ancali aumentar a produtividade, reduzir sua dependência de mão de obra e desenvolver um modelo de gestão orientado ao alto desempenho.

O que a Ancali diz que ganhou

Segundo Pedro Heller Ancarola, a transformação do sistema convencional para a ordenha robotizada permitiu alcançar resultados importantes:

  • Produção de leite: aumento de pelo menos 10% em relação ao sistema convencional.
  • Mão de obra: redução aproximada de 40% da equipe necessária para a operação.
  • Longevidade: uma lactação média a mais no rebanho.
  • Eficiência operacional: maior capacidade de acompanhamento individual e de análise de informações para a tomada de decisões.

Pedro também lembra que, durante o desenvolvimento do projeto, estabeleceu uma meta de 45 litros por vaca por dia, considerada muito ambiciosa naquele momento e posteriormente alcançada.

Hoje a produção informada é de quase 50 litros por vaca por dia. A nova meta mencionada durante a visita, ainda não alcançada, é chegar a 60 litros por vaca por dia, com aproximadamente 3,5 ordenhas diárias e maior longevidade do rebanho.

Esses resultados e objetivos correspondem às declarações da própria empresa durante a visita.

Pedro denomina o modelo de gestão desenvolvido pela própria Ancali de Ancali Milking System, baseado na integração da vaca, das pessoas e do robô. Sua mensagem central é que a tecnologia, por si só, não garante resultados: a produtividade depende da gestão do sistema completo.

Como funciona o fluxo de vacas na Ancali

No módulo 8, feito para robô, Mauricio Castillo descreve um fluxo guiado do tipo milk-first (primeiro a ordenha):

  • A área de camas tem só cama e água. O corredor de alimentação tem só comida (a PMR) e água.
  • Para chegar à comida, a vaca passa por um portão seletor. Se tem permissão, vai para a área de espera e para o robô. Se não tem, segue direto para o cocho.
  • Para voltar a descansar, ela passa por portões de sentido único, que não deixam voltar ao corredor de comida sem passar de novo pelo seletor.
  • Entre 20% e 25% das vacas ainda precisam ser buscadas para manter as visitas e o robô em uso contínuo.
Vaca passando por portão seletor no fluxo guiado de ordenha robótica da Agrícola Ancali, Chile
Portões de seleção e de sentido único organizam o fluxo guiado milk-first. Imagem: vídeo da Santafé.

Menos vacas por robô para tirar mais leite

Mauricio explica por que a Ancali reduziu a lotação. Quando a vaca produz mais, ela fica mais tempo no box: acima de 7 minutos, e acima de 8 minutos ela está dando 18 a 19 kg ou mais por ordenha. Como o tempo do robô é finito, com muitas vacas no lote nem todas conseguem ser ordenhadas, e aparecem vacas vazando leite no pátio. Por isso eles trabalham hoje com 54 a 55 vacas por robô, e não mais com 60 ou 65. Pedro Heller Ancarola fala em 45 a 50 para os objetivos da Ancali, e lembra que o fornecedor costuma oferecer 65 a 75 vacas por robô. A mensagem dele: cada fazenda desenha o seu “traje sob medida” a partir dos próprios objetivos.

O painel ao vivo mostrava cerca de 16,5 kg por ordenha, com cerca de 7,5 minutos por ordenha.

Vaca feita para o robô: o “Índice Ancali”

A fazenda criou um índice próprio de seleção, o Índice Ancali, que prioriza o comprimento e a posição dos tetos, a posição do úbere e o tamanho da vaca. Em 2014, conta Mauricio, havia vacas grandes demais para entrar no box. Há 5 ou 6 anos todas as vacas são genotipadas. Hoje, 45% recebem sêmen para fêmeas de reposição e 55% recebem sêmen de corte. Ele também destaca que são “vacas muito mansas”, e liga o bem-estar a uma ordenha robótica tranquila.

Tráfego livre, guiado e híbrido: o que o Dr. Trevor DeVries ensina

O tipo de fluxo é uma das primeiras decisões de uma fazenda com robô, e o DeVries dedica uma aula inteira a ela.

  • Fluxo livre: a vaca escolhe quando ir ao robô e ao cocho, com poucos portões. É o mais comum no Canadá: 87,8% de 197 fazendas com robô (Matson et al., 2021).
  • Fluxo guiado milk-first: a vaca precisa passar pelo robô (ou pelo seletor) para chegar ao cocho. É o caso do módulo 8 da Ancali.
  • Fluxo guiado feed-first: a vaca come primeiro e é selecionada para o robô quando volta para as camas.
  • Híbrido: uma versão modificada do guiado.

Os dados que ele apresenta: num levantamento com 635 rebanhos (Tremblay et al., 2016), o fluxo guiado esteve associado a menos leite. Bach et al. (2009) mostraram que o milk-first pode reduzir a ingestão e o número de refeições. Em 75 fazendas de Ontário, o fluxo livre teve +0,37 ordenha/dia, ou +2,1 kg de leite/dia (Matson et al., 2022). A conclusão do DeVries é equilibrada: “ambos podem funcionar bem com bom manejo”. Quando o manejo falha, no fluxo guiado as vacas fazem menos refeições e esperam mais. No fluxo livre, o produtor tem de buscar mais vacas atrasadas.

Sobre a lotação, o DeVries mostra que o comum é ter 45 a 60 vacas por robô (média de 48 em 197 fazendas canadenses) e que a frequência de ordenha cai 0,15 a 0,22 vez por dia para cada 10 vacas a mais por unidade (King et al., 2016; Matson et al., 2022). Acima de 60 vacas por robô, aumentam as vacas atrasadas (Rodenburg e Wheeler, 2002). A decisão da Ancali de baixar a lotação está dentro dessa faixa.

Saúde em ordenha robótica: úbere, claudicação e vacas recém-paridas

Para o DeVries, a vaca que não vai ao robô por vontade própria é o grande inimigo do sistema, e a principal causa é a claudicação. Vacas mancas têm 2,2 vezes mais ordenhas involuntárias, são ordenhadas 2,78 vezes por dia contra 3,08 das sadias e produzem 1,6 kg a menos (King et al., 2017). Nas fazendas com robô do Canadá, a cama de areia esteve associada a 9,3 pontos percentuais a menos de claudicação clínica (Matson et al., 2022), a cerca de 36.700 células/mL a menos e a +1,5 kg de leite/dia em relação às camas orgânicas (Matson et al., 2021).

Sobre o úbere, o DeVries lembra que a piora da saúde da glândula mamária depois da transição para o robô “tem pouco a ver com o robô em si”, e mais com as mudanças de instalação, higiene e manejo. Ele mostra que limpar mais vezes o corredor esteve associado a uma CCS menor: cerca de 7.000 células/mL a menos a cada 5 limpezas extras por dia (Matson et al., 2021).

A Ancali aplica vários desses pontos, segundo Mauricio Castillo: cama de areia desinfetada e renovada uma vez por semana, quando também fazem o diagnóstico de prenhez e as vacinas; raspador funcionando 24 horas nos corredores, “por uma questão fundamentalmente sanitária e sobretudo de mastite”; e, contra o clima que vai de abaixo de zero a 40 °C, ventiladores sobre as camas e aspersores na linha de cocho. Segundo Pablo Vázquez, gerente de processos, a fazenda recupera cerca de 85% da areia do esterco e a reutiliza nas camas.

Camas de areia, ventiladores e corredor com raspador automático no galpão de ordenha robótica da Agrícola Ancali, Chile
Camas de areia, ventiladores e raspador no corredor. Imagem: vídeo da Santafé.

O DeVries também mostra que os dados do robô antecipam doenças. A produção e a ruminação caem dias antes do diagnóstico de deslocamento de abomaso e de mastite (King et al., 2017 e 2018). Nas vacas recém-paridas, o risco de cetose subclínica em multíparas foi 1,45 vez maior em fazendas com robô (Tatone et al., 2017), por isso ele recomenda garantir 3 ou mais visitas por dia e energia suficiente nesse período. Na Ancali, o painel mostra por pátio as ordenhas incompletas e os alertas de mastite, porque, como a equipe explica diante do painel, “se a ordenha incompleta avança, não há ordenha efetiva e a mastite pode avançar”.

Nutrição em ordenha robótica: PMR, concentrado no robô e tabelas de alimentação

Por que a vaca vai ao robô

O DeVries mostra que as visitas ao robô costumam acontecer junto com os momentos de alimentação na PMR (Deming et al., 2013). Por isso o primeiro objetivo nutricional é fazer a vaca comer a PMR ao longo do dia todo: forragem de alta qualidade, comida sempre disponível e empurrada com frequência. Em 197 fazendas canadenses com robô, a média foi de 12,8 empurradas por dia (Matson et al., 2021), e fazendas com empurrador automático produziram 4,9 kg/dia a mais do que as que empurravam manualmente (Siewert et al., 2018). O concentrado no robô precisa ser palatável e um pellet de boa qualidade, sem finos. O farelado não é recomendado.

PMR × TMR: a dieta é uma só

Na ordenha robótica, a ração do cocho é uma PMR (ração parcialmente misturada), porque parte do concentrado vai no robô. A TMR é a ração total. O conselho do DeVries é formular a dieta inteira como se fosse uma TMR e só depois decidir quanto vai no robô e quanto vai na PMR. A mistura e a consistência dessa PMR dependem do vagão misturador TMR.

Produção de forragens e consistência da alimentação na Ancali

Segundo Ronald Garrido, controlador da área de produção leiteira, as forragens representam aproximadamente 65% da alimentação mencionada durante a visita, embora não se especifique com clareza a base utilizada para esse percentual.

A empresa produz e armazena volumes importantes de silagem:

  • Silagem de milho: mais de 80 milhões de quilogramas.
  • Silagem de alfafa: aproximadamente 15 milhões de quilogramas.
  • Silagem de aveia e ervilhaca: aproximadamente 15 milhões de quilogramas.

A aveia e a ervilhaca são espécies forrageiras que podem ser cultivadas em consórcio para produzir silagem, especialmente durante os meses mais frios.

Ronald explica que o milho é colhido com aproximadamente 40% de matéria seca e que a empresa controla o processamento do grão durante a colheita, realizando avaliações com o separador de partículas Penn State.

O teor de matéria seca dos ingredientes e a consistência da ração parcialmente misturada (PMR) são monitorados regularmente.

Além disso, a Ancali substituiu o milho grão úmido por um pellet energético elaborado com milho e trigo, incorporado à PMR.

Para Pedro Heller Ancarola, a alimentação representa um dos principais fatores que explicam a produtividade da leiteria. Na avaliação dele, aproximadamente 50% do sucesso produtivo depende da alimentação.

Fibra e consistência da PMR

Quando parte da energia vai no robô, a PMR precisa de fibra suficiente para manter o rúmen estável e a vaca comendo bem várias vezes ao dia. Veja como avaliar isso no artigo sobre fibra fisicamente efetiva e nas faixas de referência da Peneira Penn State.

Quanto pellet dar no robô? A pergunta que a Ancali levanta

No módulo 8 da Ancali, segundo Mauricio Castillo, o pellet vai no robô e leva “basicamente toda a parte proteica e as vitaminas”. O consumo médio fica entre 6 e 6,5 kg por vaca por dia, indo de 4 kg até 12 ou 13 kg conforme a produção e as visitas. O painel do dia mostrava 6,3 kg.

A referência que o DeVries apresenta para o fluxo guiado é diferente. Nesse sistema, a motivação para ir ao robô é a própria PMR, e a recomendação é fornecer menos de 3 a 4 kg de concentrado por vaca por dia no robô. Já no fluxo livre, o robô fornece em média 4 a 5 kg, e a PMR é balanceada para cerca de 80% da produção média do rebanho (aula de manejo nutricional).

Isso quer dizer que a Ancali está errada? Não dá para concluir isso a partir do vídeo, e não é essa a ideia. É a pergunta certa para quem estuda o assunto, e é exatamente o que o curso discute:

  • Substituição: a vaca come menos PMR quando recebe mais concentrado no robô. No fluxo guiado, essa taxa chegou a 1,58 kg de MS de PMR a menos para cada kg de concentrado (Hare et al., 2018), e ficou entre 0,78 e 0,89 em outro estudo (Menajovsky et al., 2018). O anúncio do curso no vídeo resume: “cada quilo de pellet tira até 1,6 kg” de PMR.
  • Consumo total: segundo o DeVries, mais concentrado só vira mais leite se o consumo total de matéria seca aumentar. Senão, só se troca forragem por concentrado.
  • Velocidade de consumo: a vaca “média” come cerca de 250 g de pellet por minuto. Numa ordenha de 7 minutos, isso dá cerca de 1,75 kg por visita, e com 3 visitas, cerca de 5,25 kg/dia (Bach e Cabrera, 2017). Com 6,3 kg e 3,1 visitas, a Ancali fica em torno de 2 kg por visita (cálculo nosso), compatível com ordenhas de 7,5 minutos.
  • Produção: vacas de 48 a 51 L estão muito acima das médias dos estudos citados, e a própria Ancali distribui o pellet conforme os dias em lactação e a produção de cada vaca.

Como equilibrar a PMR, o pellet e o fluxo numa fazenda real é justamente o tipo de decisão que o curso ajuda a tomar com base em dados.

Bovifeed: produção de pellets e controle de qualidade

O pellet utilizado nos robôs da Agrícola Ancali é produzido na Bovifeed, a fábrica de rações da própria empresa.

Durante a visita, Raúl Sandoval, gerente da fábrica, explica que a Bovifeed tem capacidade de produção de aproximadamente 3.900 toneladas mensais e fabrica 15 tipos diferentes de pellets.

A fábrica conta com processos automatizados para controlar a dosagem, a moagem, a mistura e a produção das rações.

Um dos aspectos mencionados é o controle da granulometria do milho, com tamanho médio de partícula de aproximadamente 700 micrômetros (0,7 mm).

O tamanho de partícula influencia a superfície disponível para a digestão do amido, embora seu efeito final dependa também do processamento, da composição da dieta e do manejo nutricional.

Além de abastecer a operação leiteira da Ancali, a Bovifeed desenvolve atividades comerciais com clientes externos, buscando diferenciar seus produtos pela qualidade nutricional e pelo valor gerado para o produtor.

Tabelas de alimentação por fase

O DeVries propõe montar as tabelas de alimentação do robô a partir das exigências e do consumo previstos. De 0 a 10–14 dias em lactação, subir até o mínimo ou a média. De 15 a 120 dias, manter o mínimo e aumentar por vaca conforme a produção. De 120 a 305 dias, reduzir o mínimo. Nos 14 dias antes da secagem, reduzir ainda mais a ração e possivelmente a permissão de ordenha (France et al., 2022).

Formulação para fluxo livre e guiado: os outros professores do curso

No curso em português, a formulação prática fica com outros três professores. O Prof. André Ostrensky trata de estratégias de manejo alimentar, PMR e ração do robô e tabelas de alimentação em 4 fases. O PhD Alexandre M. Pedroso ensina a formular para fluxo livre e guiado, com dietas para 36 e 60 kg de leite/dia, volumosos de baixa qualidade, lotes heterogêneos e uma aula sobre como chegar a 2.500 kg de leite por robô por dia, o mesmo patamar que a Ancali relata. O Dr. Marcolino F. Miguel mostra como avaliar dietas e ajustar as tabelas de alimentação, com prática num software de formulação.

Para fazer essa conta no dia a dia, dá para formular a PMR e a ração do robô com a Ruminants.AI.

Ordenha robótica vale a pena em fazenda grande?

A Ancali é um caso de escala raro, e o próprio Pedro Heller Ancarola tem uma visão equilibrada. Depois de mais de 12 anos com robôs, ele diz que, para uma leiteria muito grande que busca máxima produtividade, os sistemas híbridos (rotativa com robôs) podem funcionar muito bem. Para fazendas menores, o robô “é a alternativa que permite resolver muitos problemas”. O conselho dele é definir antes os objetivos: alta performance, menos mão de obra, mais produção, mais longevidade, outros sólidos ou melhor sanidade.

O DeVries vai na mesma linha. O retorno econômico do robô depende da vida útil do equipamento, da mão de obra e da produtividade (Salfer et al., 2017). E, sobre rebanhos grandes, ele é direto: falta pesquisa. O que se vê é que grandes fazendas costumam funcionar como várias fazendas pequenas lado a lado, o que abre oportunidades, como separar lotes por parição. Ele também aponta que usar alimentos produzidos na fazenda e pré-misturas como ração do robô pode ser mais atrativo para rebanhos grandes, com algum risco, e que o custo de peletizar em larga escala pode ser compensado pelos benefícios do pellet no robô e pela redução de desperdício. A Ancali seguiu esse caminho com a fábrica própria, a Bovifeed.

Curso de Nutrição e Ordenha Robótica com Dr. Trevor DeVries

A visita à Ancali mostra que o robô não trabalha sozinho: os resultados vêm das decisões sobre fluxo, lotação, cama, PMR e pellet. É isso que o curso ensina, do zero ao avançado, com o DeVries e mais três professores brasileiros:

  • Módulo 1, com Dr. Trevor DeVries (4 aulas): sistemas de ordenha automática, alojamento e fluxo de vacas, manejo sanitário e manejo nutricional no robô, incluindo vacas recém-paridas e rentabilidade.
  • Módulo 2, com Prof. André Ostrensky (3 aulas): manejo alimentar, nutrição de precisão, PMR e ração do robô, tabelas de alimentação em 4 fases.
  • Módulo 3, com PhD Alexandre M. Pedroso (5 aulas): formulação para fluxo livre e guiado, dietas de 36 e 60 kg de leite/dia, volumosos de baixa qualidade, lotes heterogêneos e a meta de 2.500 kg de leite por robô por dia.
  • Módulo 4, com Dr. Marcolino F. Miguel (4 aulas): avaliação de dietas, ajustes das tabelas de alimentação e prática num software de formulação.

A matrícula inclui aulas bônus (Dr. Bill Weiss, Dr. Trevor DeVries e Dr. Mike Hutjens), 12 meses de acesso à Comunidade Internacional de Nutricionistas, com tradução automática, certificado de conclusão da Santafé Agroinstituto e 7 dias de garantia: se não gostar, é só pedir o dinheiro de volta dentro do prazo.

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No curso de Nutrição e Ordenha Robótica, o Dr. Trevor DeVries ensina sistemas, alojamento, saúde e manejo nutricional na ordenha robótica, e mais três professores mostram, na prática, como formular para fluxo livre e guiado. Cupom ANCALI.

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Veja também todos os cursos online da Santafé.

Capítulos do vídeo

  • 00:00 Os números da Ancali
  • 03:02 Bem-vindos à Agrícola Ancali, no Chile
  • 03:56 Pedro Heller: 90 robôs e quase 50 litros por vaca
  • 04:43 Das salas rotativas à ordenha robótica
  • 06:19 O documento assinado: a promessa dos 45 litros
  • 07:22 Ancali Milking System: o sistema de ordenha criado pela Ancali
  • 08:42 Economia circular: dejetos, biogás e digestato
  • 10:56 Equipe, cultura e a reunião diária das 12
  • 11:56 Robô ou rotativa? O projeto sob medida
  • 14:44 Os 6.500 hectares e a produção de forragens
  • 17:05 Mauricio Castillo: dentro do módulo robotizado
  • 18:28 Fluxo de vacas, portas seletoras e conforto
  • 21:52 O robô ordenhando por dentro
  • 23:20 Reprodução, PMR e pellet no robô
  • 25:23 Por que reduzir o número de vacas por robô?
  • 26:46 Genética: índice Ancali e genotipagem
  • 29:33 Pablo Vázquez: dejetos e recuperação de areia
  • 30:38 Biodigestores, cogeração e fertilização
  • 32:18 Ronald Garrido: 80 milhões de kg de silagem de milho
  • 34:26 Peneiras Penn State e controle da alimentação
  • 35:48 Colheita 24 horas: 1.200 hectares de milho
  • 37:58 Silos, estoque e balanço forrageiro
  • 42:51 O painel ao vivo: 51 kg e 3,1 visitas
  • 44:07 Dados para quem trabalha com as vacas
  • 46:02 Katherine Rubilar: segurança do trabalho
  • 46:45 Raúl Sandoval: a fábrica de alimentos Bovifeed
  • 49:10 Os 15 tipos de pellet e o controle de qualidade
  • 50:28 Daniel Muñoz: um produtor alimentando produtores
  • 52:20 Preço por quilo ou resultado por litro?

Perguntas frequentes

Quantos robôs e vacas tem a Ancali?

Segundo informou Pedro Heller Ancarola durante a visita de 2026 (vídeo, 03:56), 90 robôs de ordenha, dos quais 72 em operação; cerca de 4.000 vacas em lactação e 9.000 animais no total. O painel ao vivo da gravação mostrou 51 kg por vaca (42:51).

Quantas vacas por robô?

Pedro Heller Ancarola fala em 45–50 vacas por robô (11:56). Mauricio Castillo cita 54–55 (25:23).

Quantas visitas e quanto pellet?

Segundo Mauricio Castillo (23:20), 3+ visitas e 6–6,5 kg de pellet. O dashboard ao vivo mostrou 3,1 visitas e 6,3 kg de pellet (42:51). A meta, ainda não alcançada, de Pedro Heller Ancarola é 60 L com 3,5 visitas.

A ordenha robótica reduziu a mão de obra e aumentou o leite na Ancali?

Segundo Pedro Heller Ancarola (vídeo, 04:43), +10% de leite e −40% de mão de obra. Ele cita também uma lactação média a mais no rebanho.

Qual a diferença entre tráfego livre e guiado?

No livre, a vaca circula sem portões e escolhe quando ir ao robô e ao cocho. No guiado (milk-first ou feed-first), portões direcionam o fluxo: no milk-first ela passa pelo robô antes de chegar ao cocho; no feed-first come primeiro e é selecionada para o robô na volta. Segundo o Dr. Trevor DeVries, os dois funcionam com bom manejo: o livre tende a ter mais visitas, e o guiado exige cuidado com as refeições e o tempo de espera. A Ancali usa tráfego guiado milk-first (Mauricio Castillo, 18:28).

Leituras complementares. Embrapa: Sistemas automatizados de ordenha no Brasil e Pecuária leiteira de precisão: sistemas de ordenhas robotizadas. Projeto de pesquisa do Dr. Trevor DeVries apoiado pela Dairy Farmers of Canada.

Fontes. Visita da Santafé AgroInstituto à Agrícola Ancali (vídeo no YouTube), com falas de Pedro Heller Ancarola (diretor executivo), Mauricio Castillo (gerente de operações), Ronald Garrido (controlador da área de produção leiteira), Pablo Vázquez (gerente de processos, dejetos e energia), Katherine Rubilar (segurança do trabalho), Raúl Sandoval (gerente da fábrica Bovifeed) e Daniel Muñoz (gerente de finanças e gestor comercial da Bovifeed). Aulas do Dr. Trevor DeVries, University of Guelph: Introdução aos sistemas de ordenha automatizados; Alojamento e manejo; Manejo sanitário; Manejo nutricional para rebanhos com ordenha robotizada. Estudos citados nas aulas: Bach et al. (2009); Bach e Cabrera (2017); Deming et al. (2013); France et al. (2022); Hare et al. (2018); King et al. (2016, 2017, 2018); Matson et al. (2021, 2022); Menajovsky et al. (2018); Rodenburg e Wheeler (2002); Salfer et al. (2017); Siewert et al. (2018); Tatone et al. (2017); Tremblay et al. (2016).

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